Se você me acompanha por aqui, sabe que o acolhimento e a psicologia voltada para a comunidade LGBT são pilares do meu trabalho clínico. Mas o que talvez você não saiba é que essa paixão não começou ontem. Ela vem desde a minha época de faculdade, quando decidi dedicar o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) a analisar como o cinema e a chamada “indústria cultural” retratam as vivências trans.
Hoje, quero abrir o baú da minha trajetória acadêmica e compartilhar com você as reflexões daquele artigo, que estudei sob o título “Transexualidades e a Indústria Cultural: Semelhança e Crítica no Filme Meu Nome é Ray”. Afinal, entender como a mídia nos ensina a enxergar as diferenças é o primeiro passo para construir um olhar clínico verdadeiramente empático e transformador.
O que a Filosofia e a Psicologia têm a dizer sobre o cinema?
Na faculdade, mergulhei nas teorias de pensadores como Theodor Adorno e Max Horkheimer para entender um conceito clássico: a indústria cultural.
Para esses autores, a cultura de massa muitas vezes deixa de ser arte livre e passa a funcionar como um negócio. O objetivo principal se torna gerar lucro e padronizar comportamentos, oferecendo produtos fáceis de consumir que divertem, mas nem sempre convidam à reflexão profunda.
E o que isso tem a ver com a psicologia e as transexualidades? Tudo.
Quando a mídia decide retratar uma minoria, ela frequentemente cria uma versão “palatável” e simplificada dessa realidade para que o grande público a consuma sem estranheza. Produz-se, assim, uma fórmula onde as dores parecem distantes, os finais são sempre previsíveis e as complexidades reais são deixadas de lado. É o que chamo de “uma transexualidade aceita na medida em que é possível ser consumida”.
O caso do filme Meu Nome é Ray
No meu TCC, usei a análise de conteúdo para avaliar o filme Meu Nome é Ray (cujo título original é 3 Generations), disponível na Netflix. A história acompanha Ray, um jovem trans de 16 anos que busca a assinatura do pai ausente para conseguir iniciar sua transição hormonal com testosterona.
Embora o filme pareça superprogressista e traga uma narrativa sensível, a produção revelou os limites da própria indústria cultural:
- A exclusão no elenco: A diretora do filme, Gaby Dellal, optou por escalar uma atriz cisgênero bem conhecida, Elle Fanning, para interpretar Ray. O argumento era de que precisava de nomes de peso para conseguir financiamento para o filme. Na prática clínica e social, isso apenas reforça a exclusão de atores trans de suas próprias narrativas, reduzindo a visibilidade dessa população.
- A busca pela “normalidade” como padrão: Logo no início, o filme foca no desejo de Ray de ser “normal”. Como psicólogo, sei o quanto a lógica patologizante faz com que pessoas que divergem das normas de gênero se sintam deslocadas ou defeituosas. A psicologia caminha no sentido oposto, defendendo a despatologização das experiências trans.
- Fórmulas repetitivas: A produção segue o clássico ciclo hollywoodiano de “problema, drama e solução rápida”. Na vida real, os desafios de uma transição e a aceitação familiar não se resolvem de forma tão simples ou linear quanto em um roteiro de cinema de 90 minutos.

A realidade fora das telas
Enquanto o cinema nos entrega histórias emocionantes e embaladas para o consumo rápido, a realidade do nosso país exige um olhar muito mais atento e cuidadoso.
Dados de relatórios como o da ANTRA mostram que a violência física e a transfobia ainda ceifam muitas vidas e que a própria mídia muitas vezes falha em respeitar a identidade de gênero e o nome social das pessoas trans.
Para quem vivencia essa realidade, a falta de reconhecimento do nome social e as barreiras cotidianas (como o simples ato de escolher qual banheiro usar) geram um tensionamento emocional silencioso e constante.
Na internet, o público LGBT tem encontrado espaços democráticos para criar redes de apoio e conquistar visibilidade. E é exatamente esse acolhimento que precisamos estender para o ambiente clínico.
Da teoria acadêmica à prática clínica
Escrever esse TCC na faculdade sedimentou o psicólogo que sou hoje. Aquela pesquisa me ensinou que o sofrimento psicológico de pessoas trans e da comunidade LGBT em geral não vem de quem elas são, mas sim do esforço hercúleo de tentar caber em padrões normativos e binários impostos por uma sociedade que resiste à diversidade.
No meu consultório, o meu compromisso ético e político é oferecer o oposto da padronização da indústria cultural. Aqui, você não precisa ser um “personagem aceitável” ou performar a dor da maneira que os outros esperam.
O meu papel não é ditar caminhos, mas ajudar você a:
- Compreender e validar sua própria história, sem rótulos ou julgamentos.
- Desenvolver recursos psicológicos para lidar com a ansiedade e a intolerância à incerteza que o preconceito social provoca.
- Construir uma vida baseada nos seus próprios valores, e não nas expectativas alheias.
A minha trajetória profissional é marcada por esse estudo contínuo e pelo profundo respeito às diferenças. Se você sente que está precisando de um espaço seguro para se escutar e tomar as suas próprias decisões com autonomia, saiba que estou aqui para caminhar ao seu lado.
Referências científicas do meu artigo
- Adorno, T. W. & Horkheimer, M. (1947). Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- Bento, B. (2012). O que é transexualidade. São Paulo: Brasiliense.
- Lanz, L. (2014). O corpo da roupa. Dissertação de Mestrado, UFPR.
- Sousa, E. T., Amaral, M. S., & Santos, D. K. (2019). Atuação do GT Gênero e Sexualidade do CRP-SC. In: Psicologia, travestilidades e transexualidades. Florianópolis: Tribo Ilha.

